Me veio à cabeça o assunto intimidade. O fato é que isso falta. Falta muito, falta quase sempre.
Existe um tipo de intimidade que você expõe: tomar banho junto, roupas íntimas, beijos e afagos. Eu chamaria essa intimidade de banal, por incrível que pareça. É uma intimidade fácil, que oferecemos fácil a alguém com quem criamos vínculos sexuais.Há, em contrapartida, intimidades dificílimas. Sabe as notas que você escreve para si mesmo quando não pode esquecer-se de algo, bilhetinhos e anotações espalhadas no caderno? Ou até mensagens de texto? Odeio que mexam nisso. Odeio que leiam, principalmente. Esse tipo de intimidade me assusta, talvez por eu ter um lado compulsivo por listar tudo (tudo mesmo) que eu preciso fazer. Listo até o que eu não preciso fazer, coisas como “não tenho aula hoje!”. Entenda, não quero que você saiba que hoje é meu dia de “lavar as calcinhas brancas”, ou de “encontrar uma nova motivação para malhar”.
Há também o tipo de intimidade diária, aquelas pequenas coisas que você só nota quando realmente convive com alguém. Particularmente eu não consigo relaxar estando vestida em casa. Vestida assim, de camisa, sapato e engomada. Casa pra mim é onde posso estar completamente confortável, com-ple-ta-men-te. Então uso roupas largas, camisetas e pijamas, o dia inteiro, doa a quem doer. Enquanto eu estiver em casa, estarei assim. O mais maluco é que eu não deixo qualquer um vislumbrar essa minha intimidade diária. Se eu sou capaz de lhe receber trajando camisetas e meias coloridas ao mesmo tempo, é porque eu te acho realmente muito íntimo. E isso vale para amigos também. Sabe aquela sensação de “tem gente vindo me visitar, melhor eu colocar uma roupa legal”? Quando eu consigo ultrapassar essa barreira, sou íntima do fulano. Mas não necessariamente desejo o fulano.
Mais doido ainda é saber que intimidade não é felicidade e muito menos desejo. Quantas vezes vemos gente arrotando e outros fazendo careta? Até peidam na frente dos outros e tudo bem. Desculpem-me os efusivos defensores da intimidade extrema como meio de vida, mas eu detesto isso em relacionamentos amorosos. Seu amigo pode fazer isso: é seu amigo, você não vai sentir desejo por ele (ou não deveria, fica a dúvida). Mas um namorado peidar na sua frente assim, sem cerimônias, pra mim soa falta de respeito. Tenho amiga até que terminou um relacionamento por esse “fator x”. Uma vezinha ou outra, escapou, ok a vida continua. Mas todo dia fica impossível.Ultimamente não gosto nem de fazer xixi de porta aberta. E odeio ficar ouvindo o outro fazer também. Pra que existem portas, afinal?
Quero comer no teu prato,
Calçar os meus pés nos teus sapatos…
E arrastar…
Gosto quando eu vejo essa preocupação no outro, esse “quero te agradar”. Não é lindo ver que alguém catou as meias sujas só pra você não ver? Ou quando alguém tira os cabelos do ralo para você não reclamar? EU SEI que todos somos estranhos e nojentos na intimidade. Só não preciso te encontrar de samba canção coçando o saco todas as noites. Posso te encontrar de samba-canção, mas coçando o saco não. Na índia, as pessoas colocam suas melhores roupas para ficar em casa. As mulheres se maquiam, colocam suas joias, para curtir em família. Acho isso lindo. Utópico onde vivemos, mas lindo. Fala sério, não consigo nem pensar em adotar isso como estilo de vida. Mas imagine você chegando do trabalho e ter uma pessoa linda e muito bem arrumada ali, só pra te esperar? Vai ver as pessoas são mais felizes na índia, e mais livres no ocidente, não sei. Enquanto isso nos divertimos tentando descobrir…
O que você faz quando
Ninguém te vê fazendo
Ou o que você queria fazer
Se ninguém pudesse te ver